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Indicadores do dono · · 7 min de leitura

Como calcular a margem por produto no Excel (e por que o ERP mostra um número errado)

Capa do artigo Como calcular a margem por produto no Excel

Resumo para o dono

O ERP costuma mostrar a margem como preço menos custo de compra. Ela ignora impostos, frete, comissão, taxa de marketplace e devoluções, que juntos podem levar 40 pontos da margem. No exemplo deste artigo, a margem do ERP é de 51% e a real é de 9%. Um dos produtos mais vendidos dá prejuízo. A decisão: saber quais produtos sustentam o lucro antes de mexer em preço, estoque ou campanha. Se quiser só o modelo, ele está no fim do artigo.

Por que a margem do ERP engana

Pegue uma distribuidora de autopeças com seis produtos principais. Nos últimos 12 meses eles faturaram R$ 299 mil. O relatório de margem do ERP mostra isto:

Planilha O que o ERP mostra, com margem por produto entre 34% e 60% e média de 51%
Margem bruta por produto, como o ERP calcula: preço menos custo de compra. Números ilustrativos.

Olhando esse relatório, a conclusão é que todos os produtos dão dinheiro e que a Lâmpada H7 e a Palheta, com 60%, são as estrelas. O problema é o que ficou de fora da conta.

O ERP sabe o preço de venda e o custo de compra porque os dois passam por ele. O resto mora em outros lugares:

  • os impostos sobre a venda ficam no fiscal ou na contabilidade;
  • o frete de entrada vem na nota do fornecedor, mas muitas vezes não é somado ao custo do produto;
  • o frete de saída está na fatura da transportadora;
  • a comissão está na folha ou numa planilha do comercial;
  • a taxa do marketplace e da maquininha está no extrato;
  • as devoluções aparecem em outro relatório, quando aparecem.

Cada um desses custos é pequeno sozinho. Somados, mudam a ordem dos produtos.

O que entra na margem real

O que este artigo chama de margem real é a margem de contribuição: quanto sobra de cada venda depois de todos os custos que só existem porque aquela venda aconteceu. Aluguel e salário fixo ficam de fora, porque não mudam se você vender uma unidade a mais ou a menos.

Diagrama em cascata do Kit filtro, de R$ 120 de preço até R$ 6,02 de sobra por unidade
Para onde vão os R$ 120 de cada Kit filtro vendido. Números ilustrativos.

A conta, por unidade:

ItemKit filtroOnde está o dado
Preço médio de vendaR$ 120,00ERP
Custo de compraR$ 58,00ERP
Frete de entrada (6% do custo)R$ 3,48Nota do fornecedor
Impostos sobre a venda (18%)R$ 21,60Fiscal ou contabilidade
Comissão (3%)R$ 3,60Comercial
Taxa de marketplace e cartão (11,25%)R$ 13,50Extrato do marketplace
Frete de saídaR$ 9,00Transportadora
Devoluções (4% da receita)R$ 4,80Relatório de devoluções
Sobra por unidadeR$ 6,02 (5%)

O ERP mostra 51,7% de margem para o Kit filtro. A margem real é de 5%. Em 12 meses, o produto que mais fatura deixou R$ 4,8 mil.

Passo a passo no Excel

Você precisa de uma linha por produto com o faturamento e as unidades dos últimos 12 meses. Se o ERP exporta vendas por item, uma tabela dinâmica resolve.

Passo 1: traga receita, unidades e custo do ERP

Colunas A a G: produto, preço médio, unidades, receita (=B2*C2), custo unitário, custo de compra (=C2*E2) e a margem do ERP (=(D2-F2)/D2), para comparar no fim.

Passo 2: some o frete de entrada ao custo

Se o frete de entrada não está no custo do ERP, calcule a média dos últimos 12 meses (total de frete nas notas de compra dividido pelo total comprado). Guarde a taxa numa aba de parâmetros e use na coluna H: =F2*Parâmetros!$B$2.

Passo 3: tire os impostos e a comissão

São percentuais sobre a receita, também na aba de parâmetros. Coluna I: =D2*Parâmetros!$B$3. Coluna J: =D2*Parâmetros!$B$4. Se cada produto tem uma alíquota diferente, troque a célula fixa por uma coluna de alíquota por produto.

Passo 4: tire a taxa do canal

Se uma parte das vendas sai por marketplace, a taxa média de cada produto depende de quanto ele vende por lá. A coluna K recebe a taxa média do produto, em percentual, e a coluna L calcula o valor: =D2*K2.

Passo 5: tire o frete de saída e as devoluções

O frete de saída por unidade (coluna M) vem da fatura da transportadora, dividida pelas unidades enviadas; o total fica na coluna N: =C2*M2. As devoluções entram como percentual da receita do próprio produto (coluna O) e o valor na coluna P: =D2*O2.

Passo 6: calcule a sobra e a margem real

Coluna Q: =D2-F2-H2-I2-J2-L2-N2-P2. Coluna R: =Q2/D2. Formate em percentual e ordene do maior para o menor.

Planilha com as colunas de custos que o ERP não soma e a fórmula da margem real em destaque
A mesma planilha com os custos que o ERP não soma. Fórmula da margem real na barra. Números ilustrativos.

O resultado, lado a lado com o número do ERP:

Gráfico de barras com margem do ERP e margem real por produto, com o Óleo 5L abaixo de zero
Margem do ERP contra margem real, por produto. Números ilustrativos.
ProdutoReceita 12 mesesMargem do ERPMargem realSobra em 12 meses
Correia 4xR$ 72.20056,8%23,0%R$ 16.636
PalhetaR$ 13.95060,0%25,2%R$ 3.509
Kit filtroR$ 96.00051,7%5,0%R$ 4.816
Pastilha de freioR$ 39.95054,1%6,8%R$ 2.731
Lâmpada H7R$ 21.00060,0%7,5%R$ 1.566
Óleo 5LR$ 56.00034,3%-4,2%-R$ 2.368
TotalR$ 299.10051,0%9,0%R$ 26.890

Três coisas mudam com a margem real:

  1. A Correia 4x sustenta a empresa. É o segundo produto em receita e responde por 62% de tudo o que sobra.
  2. O Óleo 5L dá prejuízo. Ele é pesado (frete de saída alto) e tem custo de compra alto. Cada unidade vendida custa R$ 5,92 à empresa.
  3. A Lâmpada H7 deixou de ser estrela. Os 60% do ERP viram 7,5%, porque ela vende muito no marketplace e tem 10% de devolução.

O mesmo cálculo em SQL

Se as vendas já estão num banco de dados, a conta fica numa consulta que roda sozinha todo mês. Exemplo com uma tabela de vendas por item e uma tabela de parâmetros:

sql

with vendas as (
  select
    produto,
    sum(quantidade)                    as unidades,
    sum(quantidade * preco_unitario)   as receita,
    sum(quantidade * custo_unitario)   as custo_compra,
    sum(frete_saida)                   as frete_saida,
    sum(taxa_canal)                    as taxa_canal
  from vendas_itens
  where data_venda >= current_date - interval '12 months'
  group by produto
),
devolucoes as (
  select produto, sum(valor) as devolvido
  from devolucoes_itens
  where data >= current_date - interval '12 months'
  group by produto
)
select
  v.produto,
  v.receita,
  1 - v.custo_compra / v.receita                               as margem_erp,
  v.receita
    - v.custo_compra * (1 + p.frete_entrada)
    - v.receita * (p.impostos + p.comissao)
    - v.taxa_canal
    - v.frete_saida
    - coalesce(d.devolvido, 0)                                  as sobra,
  (v.receita
    - v.custo_compra * (1 + p.frete_entrada)
    - v.receita * (p.impostos + p.comissao)
    - v.taxa_canal
    - v.frete_saida
    - coalesce(d.devolvido, 0)) / v.receita                     as margem_real
from vendas v
cross join parametros p
left join devolucoes d using (produto)
order by sobra desc;

O left join nas devoluções evita perder os produtos que não tiveram devolução. Antes de confiar no resultado, compare a receita total da consulta com o faturamento do mesmo período no ERP: se não bater, algum filtro está diferente.

Erros comuns

  1. Usar o custo do cadastro em vez do custo médio. O custo do cadastro é o da última compra. Se o preço do fornecedor subiu no meio do ano, a margem do ano fica errada. Use o custo médio ponderado do período.
  2. Aplicar a taxa de marketplace a todos os produtos. Um produto que vende 90% na loja própria não paga a mesma taxa de um que vende 90% no marketplace. A taxa média tem que ser por produto.
  3. Esquecer as devoluções. Elas raramente estão no relatório de vendas. Sintoma: a margem parece boa e o caixa não acompanha.
  4. Ratear custo fixo por produto. Aluguel dividido por receita faz qualquer produto pequeno parecer ruim. Deixe o custo fixo para a conta da empresa inteira, não do produto.
  5. Comparar meses isolados. Um mês de promoção derruba a margem de um produto. Doze meses mostram o comportamento real.

Quando a planilha não basta

A planilha funciona bem uma vez. O problema aparece quando a conta precisa ser refeita todo mês:

  • alguém exporta vendas do ERP, frete da transportadora, taxas do marketplace e devoluções, e cola tudo à mão;
  • cada pessoa ajusta uma fórmula e, em três meses, existem três versões da planilha;
  • o número sai no dia 10, quando a decisão de compra já foi tomada.

Se isso já acontece, o próximo passo é juntar essas fontes numa base única que atualiza sozinha e mostrar a margem real num painel. É o que a isbi monta para PMEs, com os dados no banco da própria empresa.

Modelo para baixar

A planilha do exemplo, com as fórmulas prontas e as taxas em células separadas para você trocar pelas suas.

[DOWNLOAD DO MODELO, nota para o Eder]

Aqui entra o botão "Baixar o modelo de margem por produto (.xlsx)", pedindo e-mail. Depende de desenvolvimento no site (formulário com e-mail + entrega do arquivo). O arquivo está no repositório .github em assets/blog/2026-11-18-margem/modelo-margem-por-produto.xlsx. Tirar esta nota antes de publicar.

O que vem no modelo:

  • aba Parâmetros: frete de entrada, impostos e comissão;
  • aba Margem por produto: os seis passos deste artigo, com o exemplo preenchido;
  • aba Como usar: de onde tirar cada número.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre margem bruta e margem de contribuição?

A margem bruta tira só o custo da mercadoria. A margem de contribuição tira também os custos que acompanham cada venda, como impostos, comissão, frete e taxas. Para decidir sobre produto, a de contribuição é a que importa.

Como calcular a margem de lucro de um produto?

Some todos os custos variáveis da venda, tire da receita e divida o resultado pela receita. A fórmula é =(receita - custos variáveis) / receita.

Qual é uma margem boa para um produto?

Depende do setor e do custo fixo da empresa. A margem de contribuição total precisa cobrir o custo fixo e ainda sobrar. Produto com margem real negativa precisa de preço novo, fornecedor novo ou saída do catálogo.

Posso usar o custo médio do ERP?

Pode, se ele for o custo médio ponderado do período. Confirme se o frete de entrada e os impostos não recuperáveis da compra já estão dentro dele.

Com que frequência devo recalcular?

Uma vez por mês, com os 12 meses mais recentes. Se a empresa muda preço com frequência, acompanhe também o mês isolado para ver a tendência.

Sobre o autor. Eder Alves é engenheiro de dados e fundador da isbi. Monta a estrutura de dados de PMEs brasileiras, do ERP ao painel, com os dados no banco da própria empresa.

Números ilustrativos. A empresa do exemplo não existe.

Quem escreveu

Eder Alves

Fundador e engenheiro de dados

Fundador da ISBI e engenheiro de dados. Desenha a base e os painéis de cada cliente, do diagnóstico à mensalidade, e escreve aqui o que aprende com donos de PME.

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